Antes que existira ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lesbianas, mulheres que amavam a outras mulheres, que recusavam cumprir com o comportamento esperado delas, que recusavam definirem-se em relação aos homens, aquelas mulheres, nossas antepassadas, milenares, cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas.

– Adrienne Rich.

Tudo está processando-se na historia e está esse velho tema do amor,

o par e os limites

Nós mulheres temos sustentado largas lutas externas e internas com nossas capacidades, de querer ser atuantes de nossos desejos, de nos entendermos mulher e entender-nos mulheres em coletivo; nossos diálogos internos, fundamentalmente, têm sido de feminilidade à feminilidade, ou seja de construção patriarcal a construção patriarcal deste dever de ser nosso corpo mulher.

O diálogo mulher/mulher é mesmo um pendente, pois o diálogo que existe, o que se tem memória, é o que fez na história, é o feminino-feminina. Neste diálogo se prima a alheidade da mulher, é um diálogo “do outro“, é o condicionamento ao amor patriarcal, nunca o amor entre mulheres como conjunto pensante, pois mesmo dentro da construção do amatório temos sido apartadas. Temos tido que nos declarar inteligentemente meio tontas para existir e permanecer no prado marcado e sinalizado da feminilidade e, isto tem mais transcendência do que à primeira vista aparece como uma briga por sobrevivência, sobrevivência que é a custa de nossa dimensão humana, pensante e atuante, é as custas deste diálogo mulher/mulher.

Enquanto não sejamos capazes de interrrogar o desenho do modelo que “tiveram feito outros da nossa erótica”, de nossas formas de erotizar-nos, enquanto não sejamos capazes de aceitar e criar outros modelos, de abrir a atração entre mulheres, abrir a necessidade de entrar em diálogos corporais e erotizados com uma outra Igual, não nos amaremos a nós mesmas, não nos amaremos como mulheres e, fundamentalmente, não nos respeitaremos como gênero. Quando nos interrogamos, recém començamos a meter-nos no mundo, recém começamos a romper a própria misoginia – consigo mesma e com as demais – ; antes é um estar como de convocada, convidada a um sistema que é pensado através de nós mesmas, que se erotiza com nossos corpos, não conosco, senão com essa estranheza sobre nosso corpo mulher com que nos foi significado, sempre um pouco fora, fora do mundo, fora da cultura, fora da política e fora de nosso próprio corpo.

Preocupam-me essas mulheres que se declaram profundamente heterosexuais, que divinizam o corpo masculino, mesmo que seja este mesmo corpo que adoram aquele que as teve submetido à secundaridade como espécie, aquele que as menospreza.


Esta outra memória velada de nós mesmas, que existe, que é parte de nossa história, é toda uma cultura subsumida
na “feminilidade”. Existe uma atração entre mulheres, justamente por toda esta alheidade a que temos sido submetidas, um desejo que poderíamos associar à paixão mais que ao amor, à solidariedade ou à amizade entre mulheres, este desejo de aprender /aprender-nos, de conhecer/nos, de descobrir/nos. Neste lugar da paixão, quem sabe, seja possível entender/nos e entender às coisas que nos passam entre mulheres. Desde a feminilidade construída é muito difícil entender essa paixão entre mulheres, pois que a memória está borrada e não se deixa circular, porque indiscutivelmente o sistema instala a feminilidade misógina, que propõe o ódio à nós mesmas, o menosprezo, mesmo que algumas vezes nos erotizemos este espaço tão significado. Por isso quando nos erotizamos neste espaço tão pré-significado da feminilidade, ficamos estacionadas, não trocamos nada além de “o corpo da erótica”.

A dimensão da paixão e sua memória dentro de nós existe, temos que encontrar/la e significar/la no tempo, há que se registrá-la e fazê-la sair do lugar do nada, já que o patriarcado tem uma preocupação especial de borrá-la, eliminando-a inclusive da memória de nossos próprios corpos porque ali radica sua vigência, ali constitui seu poder. É nossa responsabilidade, nosso desafio, entender e construir esta dimensão do desejo/paixão/de conhecer/nos.

Poderia afirmar que toda mulher conserva essa outra memória/imemoriada, que sua forma de relacionar-se com outra mulher está transpassada por esse conteúdo. Nada poderia propôr-se desde o feminismo e, em especial, desde o feminismo radical, se não passasse por recuperar “esta outra história” de mulheres.

Em todo ser humano existe a potencialidade de atravessar os limites culturais estabelecidos da heterosexualidade, somente se aceita essa potencialidade poderá este desfazer-se dos prejuízos contra as lesbianas e homossexuais e, me atreveria afirmar, que para além de romper com os prejuízos, assumindo esta potencialidade não estática da erótica, poderá começar a recém limpar-se da misoginia do sistema e este não é o mesmo exercício que executam os homens nem os homens heterosexuais, pois eles sempre tiveram amado a si mesmos e amado misoginistamente, estejam onde estiverem.

A amiga íntima e nossos pequenos incidentes lésbicos

As mulheres temos sempre uma amiga íntima, uma outra que nos contém, uma aliada e é com esta outra que se cruzam nossos pequenos incidentes lésbicos, imediatamente negados. Esta negação se enraiza na sensação de terror de descobrir-se pensando ou sentindo passar o limite do permitido na formação dos modelos de erótica e da ética/moral estabelecida. Paraliza-se ante a sanção iminente do sistema, se nega a si mesma, para não ser negada duas vezes pelo patriarcado: uma por ser mulher e a segunda por ser lesbiana. Outras não tantas se recusam a cumprir com o comportamento esperado, são as minorias rebeldes que nos fazem valentes, são as que transitam e assumem o lesbianismo e aquelas que se abrem a compreendê-lo de verdade.

Uma grande parte dos problemas que temos para fazer amizade entre mulheres passa por essa paixão/desejo de conhecer/nos, esta paixão não reconhecida, não historiada, não aceita mesmo nos níveis mais profundos de nossa consciência. A paixão/desejo, ao ser negada e constantemente postergada,se traduz em rechaços, traições e ódios tremendos fora da razão e do tempo, pois que ‘a outra’ a deflagradora desta paixão/desejo sancionada, é a idéia da Eva tentadora do mal, a que faz cair o homem, e que esta vez funciona para nós mulheres, em vez da nossa Eva. É, pois, difícil construir uma amizade, que não esteja prejudicada e permeada por esta proibição misógina de nos amarmos. Que memórias não recordadas trazem, que histórias de sensações de ardores e perdições de nós mesmas traímos por querer-nos, que mandatos a fim de odiarmos, sem sequer entender o que se passa?

Lesbianismo/parelhismo/espelhismo

Como nos querer de outra maneira diferentemente dos papéis, das inseguranças, das demandas de propriedade/fidelidade, sem o drama, o tango, sem o bolero, sem o segredo, sem deslealdades, sem nos atraiçoar-nos constantemente? É nesse espaço amoroso de mulheres de onde podemos reinventar outras formas e amor, este ‘outro amor’, essa suspeita de ‘outra cultura’, onde nos sejamos mulheres pensantes e não inventadas por outros, onde re-desenhar outras formas de convivências entre seres humanos/as que não seja a parelha do domínio.
Posto que o amatório é masculinista, ‘a construção da parelha está patriarcalizada no domínio”, e o patriarcado está em temperado con esta construção convencional do amor parceril. Arma essa escassez de amor em um discurso do amor grande, único, de ‘a dois’, em casal e para sempre, que ao final mata os amores, a uns por culpa e a outros de tanto amor; instala a dor, não o amor. É como a navalha de Robin Hood, porque Robin Hood empunha a navalha do amor, do bom amor, do amor salvador que pouco a pouco se vai confundindo com a navalha de Jack o Estripador, e uma morre sempre de algum destas duas punhaladas, padecem o mesmo, matam o mesmo.
A estética, a beleza do amor patriarcal estão simbolizadas na escrava/dominada, a mais bela de todas: a dominada. A que não ocupará o assento da rainha, a depositária do desejo que não é a metáfora da rainha, pois que a rainha é a mãe dos filhos, a continuadora da linhagem, a segunda (sempre) depois do rei, a guardiã de seus interesses, a custodiadora de seu poder e dos valores que o sustentam. Isto segue vigente, mesmo que pintem às rainhas e às escravas de todas as cores, de todas as modernidades.
A estética e a ética de lesbos é pelo contrário a
horizontalidade, porque nessa horizontalidade que se sucedem os intercâmbios pessoa-pessoa. Esse espaço amoroso devemos desenhá-lo, inventá-lo, temos que narrá-lo para que vá construindo um saber-amar-outro, para que vá acumulando-nos em sociedade de outra maneira, com outra ética e outra estética. Devemos ter cuidado de não readequar a parelha, acreditando que inventamos outro modelo, isso não seria mais que um reacômodo ao mesmo fango patriarcal. A cultura vigente nos faz sentir que somos diferentes, que nossas construções de casal/par são diferentes, ao mesmo tempo que nos submerge a todas em seus costumes e seus valores, fazendo que todos, de uma ou outra maneira, repitam os mesmos modelos.

Reinventar outro tipo de relação/amor leva ao feito de repensar a nós mesmas, repensar nossas formas de relacionar-nos, repensar as estratégias parceris e isto tem uma regra -se é que podemos falar de regras- e é saber não enganar a nós mesmas, e quando falo de enganar, não falo de infidelidades nem fidelidades senão de não disfarçar nada, de não esconder nada, nem proteger-nos, nem proteger a outros; isso tem uma dose grande de valentia, de riscos, de assumir-se sem proteções próprias nem alheias; tem a uma desbravadora, uma aventureira dentro e nada é intocavel, nada é inquestionavel, nada é sagrado; tem um objetivo claro e profundo de fazer-te expressada, livre e mais humana… e isto não deve ser confundido com fazer-se mais boa, porque geralmente é todo o contrário, pois que o “bonismo” amortece, esconde tudo, nega tudo; se arma desde o sacrifício e a hipocrisia… À estas alturas do conto, muitas já sabemos o difícil e doloroso que é… no contar finalmente o conto… quando tem-se mais outro conto.
Se não reestruturamos, re-alimentamos, re-desenhamos, re-humanizamos e repensamos o espaço lésbico, caímos de cara na exaltação patriarcal do romántico amoroso sentimental onde acreditamos estar livres da traição dos homens, exaltando a feminilidade-feminilidade: o amor sem limites dentro da irracionalidade; o amor sentimental, sacrificado, inquestionavel, sagrado; o amor em si mesmo como contido de honestidade, de interesses comuns; este amor que não se pensa, como se não tivesse uma pessoa responsável por detrás com seus valores, sua cultura, suas proposições, sua própria biografia e é, precisamente aqui, de onde o patriarcado tende a trapacear, pois não é o feitio de romper o limite da erótica estabelecida, a transgressão, senão o pensar dita transgressão, desenhar estratégias para que tal transgressão não seja como todas, recuperada.

Se não nos detivermos a repensar o casal[o par], que é a base do clã familiar patriarcal de onde se aprende o poder sobre as pessoas, estaremos repetindo o modelo, ou seja, buscaremos casar-nos, legitimar-nos perante o sistema, ter filhos, e se não tivermos filhos suprir a carência com gatos ou cães que serão cuidados como se fossem filhos; no fim, a cadeia não se detém em estabelecer as imitações da família, a família de mentira que é pior que a família da consanguinidade, e não estou dizendo que não há que se querer as crianças ou aos animais, senão não usá-los como suplentes, nem confundí-los como tão facilmente fazemos, de tratar às crianças como animais e aos animais como crianças.
O casal existe porque existe a lógica do domínio e o jogo do par é o jogo do domínio patriarcal; daí o tópico: “No amor e na guerra tudo se vale”: ter serviço secreto, ter cativos, reféns, estratégias, assaltos, traições, planificação de ataque, imolações, derrotas, vitórias, etc. Essas manobras na guerra se disfarçam atrás do halo heróico salvador, o mesmo que no amor; contudo, no plano amoroso todas essas manobras são pintadas de novela rosa.
Esta cultura não entende nem constrói seres completos e em si mesmos, livres e autônomos, pelo contrário, os faz carentes de tal maneira a ter que completarem-se em outro/outra, dependendo sempre de outro/outra e isto ademais o constrói socialmente. Uma pessoa sem necessidade de completar-se em um outro/outra, com projetos e desejos independentes está em desvantagem ante o sistema, ao mesmo tempo
que está en completa vantagem sobre si mesma, está com o poder de desenhar sua vida, está na libertade. Porém, o sistema que está armado para o casal, sanciona essa liberdade de desenho da própria vida, os vê quase tenebrosos, pois o sistema está pensado para dois e, ademais, está pensado para a parelha reprodutiva, não para indivíduos, nem para sujeitas/os que se vão modificando no tempo com a vida, senão para sujeitos estáticos e conservados de a dois. Muito distinto é falar da liberdade de estar, amar e transitar acompanhado com um outro/outra, que estacionar-se em uma parceria patriarcalizada com a projeção de ‘pela vida’, repetindo o modelo de propriedade.
O sistema arma a parelha (matrimônio) de tal maneira que: um tem o poder e o outro o contrapoder (papeis que se invertem, que nem sempre são estáticos). Cativa às pessoas com o mandato da segurança que proporciona a fidelidade, com a proposta e o anseio por eternidade, com a qual esta construção baseada no amor, termina por encerrar o amor e matá-lo.
Devemos entender que com essa construção do amor não armamos às mulheres vez que somos nós as mais capturadas nelas, nos instala como as próprias guardiãs da feminilidade, havendo que prestar contas, a ter que explicar-se e justificar-se: por que olhou, por que não chegou, por que pensou, por que te foi, por que voltou, por que sonhou, por que gritou, por que se rebelou. Os outros modos, os outros ensaios de convivências são invisibilizados e castigados pelo sistema, pois o sistema está vigiado (Foucault).


Como lesbianas, temos uma história gestual de vida que vai mais além do relato amoroso vigente. Por ela, submergir-se em uma parelha já significada, tem muitos custos, custos de vidas inteiras, do mesmo modo que sair-se das atuais formas de amar con suas fidelidades e lealdades também tem custos de vidas inteiras, não sabemos fazê-lo, não há modelos, não há registro – apesar de haver muitos ensaios silenciados-, não temos idéia de como fazê-lo; com tantas inseguranças, carências e medos com que nos socializam, sofremos muito, porque somente estando submergidas no drama nos sentimos viver e morrer ao mesmo tempo. O drama captura, impede qualquer reflexão que não passe pelos estados obssesivos da dor, poi a cultura vigente está embasada no dor-sofrimento.
Não temos re-simbolizado a vida e menos o amor como para vivê-lo de outra maneira, não temos desentranhado as projeções de propriedade sobre outra pessoa e para que exista uma outra/o como propriedade, pois deve existir uma proprietária/o, uma depositária de nosso sacrifício de entregarmo-nos, e insisto em que o sacrifício é uma armadilha e até que não descubramos o arriscado que é este sistema sofredor, seguiremos permeadas do sacrifício de uns por outros… e não estaremos saindo de toda a hipocrisia antagônica do sistema… Não quero que ninguém se sacrifique por mim nem quero sacrificar-me por ninguém,
não creio em mártires, nem em cruzes para construir o respeito do humano. Recriando parelhas sacrificadas não se constrói o respeito e isto é um gesto profundamente político.


É necessário romper nossas necessidades tão profundamente inscritas com argumentos culturais biologicistas de complementaridade, já que estes têm levado a entender o amor somente em sua dimensão reprodutora, protetora e cuidadora do casal heterosexual, tão funcional a um sistema capitalista e neoliberal.


A parelha lésbica que deverá romper profundamente esta construção cultural, se enreda muito mais que a parelha heterosexual, tão instalada e legitimada: por um lado, se mantém em um meio totalmente hostil que faz com que se unam, se protejam, se encerrem a uma na outra como uma condição de sobrevivência e proteção ante o meio. Por outro lado, ao sairmos deste amor reprodutivo e de domínio, tomamos o discurso do romântico amoroso sentimental. O homem que é infiel por natureza, já não está, não é requerido, nem essencial no jogo amoroso, no entanto, se nos juntamos duas mulheres que somos “a fiéis por natureza”, as que “sim sabem amar”, “as que amamos sem limites”, traduzimos essas fidelidades em clausuras, depositamos-lhe a clausura ao sistema, nos sistematizamos, “nos ordenamos” em par, nos perdemos como pessoas individuais, nos simbiotizamos com a outra em um gesto siamésico, deixando todas as alternativas de libertade, de amor, de vida, de eros, enclausuradas, pois o casal é uma construção cultural criada pelos homens em prol de suas seguranças e acomodações socias; é a
redução minimizada do poder, por ela está sempre em crises e, embora nos empenhemos em esconder dita crise, cada certo tempo voltará a aparecer no horizonte, alucinada com outros eros, outros despertares corporais, outros desejos de libertade.
A parelha já significada faz a gente perder não somente o amor, senão o desejo de aventura, de aventurar-se em outros seres, de aventurar-se a inventar novas sociedades, novas culturas, novas formas de relacionar-se. Faz desaparecer aquele anelo da comprensão, e é justo ali onde aparecem os seres podres por dentro e por fora, toda essa quantidade de seres humanos que não estão vigentes, pois depositaram em outro/a toda sua capacidade erótica, amorosa e criativa, e sem esse outro/outra se trasformam em seres amputados e isto que parecera que pertencia ao mundo do amor, ao mundo privado, é do mundo concreto, da vida cotidiana que construimos como sociedade.
A quem estamos entregando o poder sobre nós? Quanto tempo na história respondemos à família, a que julga, mal/ama e finalmente nos instala em uma sociedade a sua imagem e semelhança? Como poder viver nossos amores e desamores, de tal maneira que sejam
uma proposta de respeito humano e liberdade mais além das proteções e dos sacrifícios dos moldes de propriedade e fidelidade patriarcal?
O dia que tenhamos uma linguagem de narração própria da sexualidade das mulheres, próprio da sexualidade lésbica – não a linguagem da negação que temos tido até agora, não a linguagem da sexualidade legitimada e profissionalizada, hoje tão na moda, resguardada constantemente em sacralidades- poderemos limpar este espaço e lograr que seja diferente.
O amor não é apenas um único na vida, não nasce de gerações espontâneas, existe um fiar de amores, como de colares, que se vão engarçando no tempo. Cada um tem um sentido, cada um traz uma proposta, em cada um vai ficando um pendente, e todos estes pendentes, acumulados, reservados no tempo são os que aparecem reais e concretos no presente amor e este do presente vai a constituir, por sua vez, até o futuro outro pendente… O amor não é um único, nem morre em um acidente na esquina, é um constante de nossas vidas, aparece como aparecem os seres humanos -diferentes-, nos provocam novos desafios de entender-nos, novos desafios de redesenhar-nos e sanar-nos do “maltrato cultural”,
de entender que há várias maneiras de entender o compromisso por outra pessoa, o sentir amor enquanto dure o sentimento, e este compromisso só pode ser o cuidar o mais que se possa deste sentimento, que uma vez que começa, também começa a desaparecer; como tudo na vida, tem um início, um tempo e um fim.

Se os sonhos, os amores e as liberdades que não se vivem, se morrem por dentro… te apodrecem, te matam pouco a pouco. Olha como está este mundo sem sonhos, sem amores, sem liberdades, morrendo.

Somos Nós mesmas as que temos que…


Repensar nossas formas amorosas de nos relacionarmos, repensar nossas formas políticas de nos relacionarmos, religá-las, pois são políticas. Se como lesbianas queremos instalar-nos na parelha patriarcal, não estaremos mudando nada mais que o corpo de nosso desejo erótico; mudamos o corpo masculino pelo feminino, mas com a mesma cenografia para montar o mesmo conto, não estamos propondo nenhuma mudança além do desejo de legitimação como grupo minoritário. Ao mesmo sistema que nos deslegitima o suplicamos que nos legitime, fazendo-o duplamente poderoso. E quando falamos de sistema estamos falando desde o núcleo familiar até as instituições, todos constituídos por seres de carne e osso. É aí que perdemos o rumo, pois não pode existir uma modificação do sistema através de nós mesmas, senão um acomodamento de nós ao sistema, por isso me surpreendo de ver que existam lesbianas que queiram casar-se ou que desejem ser parte do exército… mais para além do direito de igualdade e as vocações de cada uma, creio que há que repensar a vigência do matrimônio, pois é uma instituição tão patriarcal como os exércitos. Temos que separar águas com quem quiser dar continuidade a um sistema injusto, arbitrário, racista, baseado na propiedade privada e na primazia do homem branco.
Um movimento lésbico-político-civilizatório, repensa todos os elementos que tramam o sistema e deste lugar desenha suas estratégias políticas. Não pode entregar sua reflexão a outros grupos marginalizados, pois a única coisa que as une a outros grupos marginalizados é somente o feito da marginalização. Não temos os mesmos interesses políticos que os ecologistas, que os gays, os travestis – que são os que têm retomado e reinstalado o discurso da feminilidade- nem com os diferentes projetos dos partidos políticos, nem das igrejas, etc.


Sem pensar/nos e re/pensar o movimento lésbico político civilizatório, não poderemos desarticular o sistema, pois sem este reanalizar-nos, não saberemos se não é desde dentro do próprio movimento lésbico que estamos traindo nossas políticas e nossas potencialidades civilizatórias.
A análise da realidade desde a cultura vigente e suas propostas, é
uma realidade que não existe para nós, é uma realidade onde nunca estivemos, nem estaremos, nem estamos, nem nos pertence como análise, por isso devemos revisar muito cuidadosamente a necessidade de aderirmos a qualquer análise ou proposta de mudança que não provenha de nós mesmas, recuperar nossas próprias reflexões, nossa própria história política, pois obviamente não temos os mesmos interesses de outros grupos marginalizados; podemos fazer alianças circunstanciais, mas não deixar que nosso discurso seja tomado por outros, que se perca em outros.
Sentindo-nos ‘tão fora do sistema’ nos baixam nostalgias de legitimidade, e essas nostalgias nos fazem perder-nos e traem nossa história, terminamos por querer estar no centro mesmo do poder, quando o desafio político é não formar parte do sistema, não colaborar com o mesmo sistema que há poucos anos nos queimava nas praça públicas e que de outra maneira, menos visível, nos segue queimando, nos segue perseguindo, nos segue reciclando.

Há um limite ético e político com nós mesmas e nosso corpo; por isso, deixar as coisas como estão, já não é possível, não existe essa realidade para nós.

Margarita Pisano 16 de outubro de 1997

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2 Respostas to “”

  1. Hello Sistas,

    great site

  2. Priscilla Says:

    Quero saber tudo sobre esse assunto

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